Eu estou lendo um livro (ou tentando) sobre o Zen, o qual não vou citar no momento porque ainda não sei se vale a pena indicá-lo; entretanto entre os diversos koans citados no livro, um me chamou atenção especial, e acho que é uma pequena estória que merece ser contada independentemente das interpretações que possam ser dadas pelo Zen ou por qualquer outro pensamento, pois realmente possui um grande valor literário. Como não encontrei este koan na internet em geral, achei interessante publicá-lo aqui. Então aí vai, espero que cause em vocês o mesmo efeito que causou em mim.
Num lugar chamado Kayo vivia um homem, Chokan, cuja filha mais nova, Sei, era muito bonita e o orgulho de seu pai. Ela tinha um primo simpático de nome Ochu, e Chokan costumava dizer, de brincadeira, que eles formariam um belo casal, após casados. Os dois jovens, no entanto, levaram a sério esta galhofa, e se consideravam comprometidos, estando apaixonados um pelo outro. O pai, porém, pretendia dar Sei a casamento a outro jovem, Hinryo, e a tragédia não pôde ser evitada. Indignado, Ochu deixou o lugar de barco, e após uma jornada de vários dias, descobriu numa noite, para seu espanto, que Sei estava no mesmo barco. Exultantes, eles foram para o país de Shoku onde se casaram e, mais tarde, tiveram dois filhos. Sei, contudo, não conseguia esquecer seu lugar de nascimento, e sentindo ter abandonado seu pai, se perguntava o que ele estaria pensando dela. Ela ansiava por retornar, de modo que seu marido decidiu voltar com ela. Quando chegaram, Ochu deixou Sei no porto e foi à casa do pai dela pedir desculpas por ter levado a moça embora de casa e implorar-lhe perdão. “O que significa tudo isso?”, exclamou o pai. “Quem é essa mulher de quem falas?”. “É Sei”, respondeu Ochu. “Impossível!”, disse Chokan. “Depois de você partir Sei ficou doente e esteve de cama por vários anos. Não pode ser Sei de jeito nenhum!”.
Ochu voltou ao barco e trouxe Sei até a casa de seu pai. Ouvindo isso, a Sei que estava acamada ergueu-se do leito e, indo na direção da Sei que vinha do barco, as duas se tornaram uma. Chokan disse que depois de Ochu partir sua filha nunca falara, jazendo ali como se estivesse num estado de choque. A alma deve ter partido do corpo. Sei disse que não sabia que seu corpo estava na casa. Quando sentiu o amor de Ochu, e o viu partir, ela o seguira como num sonho, mas depois não se lembrara de mais nada.