Bem… parace-me que fracassei no objetivo de manter um “blog jurídico”, pois com este post, em que mais uma vez falo de literatura, supero em número os posts de temas relacionados ao direito. Porém, considerando a minha paixão pela mais magnífica arte, não me surpreendo.
Em verdade, comentarei hoje sobre uma obra literária que ultrapassa o papel, pois “O Inimigo do Povo” é uma peça de teatro, que já foi sucesso de bilheteria, numa época em que Titanic era apenas um projeto de navio (e olhe lá!).
Tudo começou há semanas atrás com horas de discussão filosófica com um amigo, sob forte influência de álcool. Algo que só recomendo àqueles que têm experiência nisso, pois as conseqüências para a sua mente podem ser irreversíveis!
Pois bem, este amigo, Vinicius, após as minhas inúmeras queixas sobre a esmagadora maioria de ignorantes no mundo, me indicou (e posteriormente me emprestou) o livro em comento.
“O Inimigo do Povo” é uma obra que eu amaria inevitavelmente, considerando a afinidade que tenho com as idéias do autor (apresentadas nesta obra), sobretudo no que diz respeito à imprensa, por isso, começarei falando deste aspecto, e para isso, uma citação.
“HOVSTAD – Nós, jornalistas, senhorita, não valemos grande coisa.”
(deixo de indicar a editora e os dados do livro pois a qualidade é ruim… muitos erros ortográficos etc)
Durante a obra, podemos ver como o pessoal da imprensa não têm nenhum compromisso com o relato dos fatos de maneira imparcial, às escondidas, eles são partidários e preocupam-se apenas com seu lucro, mudando de lado no processo político sempre que conveniente.
Precisamente é assim que se comportam os jornalistas em geral (até nas suas vidas pessoais). E é impressionante como mesmo na faculdade aprendem a ser hipócritas e perniciosos, para ser “moderada” nas palavras.
De todas as classes profissionais, definitivamente, os jornalistas são os que menos respeito, em geral são extremamente ignorantes. E o que fazem com maior freqüência é falar besteiras de assuntos que não entendem, nos jornais, revistas e na TV brasileira. A demagogia impera no meio jornalístico, e é muito fácil perceber como tudo isso têm por objetivo manipular a massa de pessoas que precisam de outros para pensar por elas (não sei qual dos dois grupos é pior, se manipulados ou manipuladores).
Aliás, este é outro ponto em que “O Inimigo do Povo” impressiona. As pessoas da cidade em que se passa a estória são incapazes de tomar decisões ou pensar por si mesmas, ou por incapacidade, ou porque não têm coragem de desagradar os dominadores político-econômicos. Falarei deles daqui a pouco, primeiro, mais uma citação.
“DR. STOCKMANN – Repito, não me convém perder tempo com esta pobre manada de fôlego curto, que nada tem a ver com o grande movimento da vida. Para eles não é possível o sonho, nem o progresso. Penso no pequeno grupo de indivíduos que estão sempre na linha de frente, longe da mesmice da maioria, lutando por novas verdades, demasiado novas para que a maioria as compreenda e as admita. Vou dedicar toda a minha energia e a minha vida a contestar a pseudoverdade de que a voz do povo é a voz da razão! Que sentido têm as verdades proclamadas pela massa, massa essa que é manobrada pelos jornalistas e pelos poderosos? São uns velhos caducos. Pode-se dizer que são uma mentira, pois acabarão se tornando uma mentira. (Ouvem-se protestos, assobios, berros). Pouco estou ligando se acreditam ou não em mim”.
O autor demonstrou (há dois séculos) como é burrice deixar as decisões da sociedade nas mãos da maioria, já que a massa do povo não é formada por aqueles que tem capacidade para refletir, aliás, essas pessoas sequer têm consciência da sua própria existência enquanto indivíduo humano, que é parte do todo.
Recentemente, tivemos um referendo em nosso país, um belo exemplo do exercício da democracia em um Estado livre e laico. Pois bem… o exemplo foi tão bom que o resultado foi perfeitamente aquele previsto por Ibsen: o rebanho foi conduzido pelos meios de comunicação e pelos detentores do poder político-econômico (me lembro do quanto a TV me irritou com seu partidarismo dixavado), então o povo preferiu banhar-se e beber a água podre…
É impressionante a total falência do modelo democrático-capitalista que consome nossas almas. Não que eu seja defensora do comunismo\socialismo, pois são também formas de pensamento caducas, ultrapassadas que se degeneraram por si mesmas, deixando evidentes os seus vícios nas várias tentativas frustradas. Porém, me incomoda a estagnação que há hoje no pensamento político… parece que estão todos satisfeitos em comprar uma TV de plasma em vinte e quatro prestações sem juros. Há muito tempo não se vê por aí Drs. Stockmanns. Sinto que vivemos em uma Idade das Média quanto a certos tipos de pensamentos, sobre tudo os das ciências sociais… aliás reflexo disso é a proliferação de religiões alienantes para todos os cantos… a coisa só não é pior porque não há unicidade entre esses grupos, como ocorreu na Idade das Trevas.
Esse ponto é muito curioso, não há referência à religião na obre em comento. Ele preferiu deixar esse questão para outra oportunidade. Porém, abordou outra questão muito interessante: a educação.
“PETRA – Há tanta mentira em casa quanto na escola. Aqui temos que nos calar e lá devemos mentir para as crianças que nos ouvem”.
No fim, o personagem principal decide tirar seus filhos da escola e dar-lhes educação ele mesmo. Tentador! Inúmeras vezes já discuti a questão com amigos e familiares. Mas pelo menos quanto a este particular observo grande movimentação dos intectuais no sentido de mudar as coisas… e existem sistemas educacionais muito peculiares e dignos de admiração, no mundo, o que não é o caso do nosso país. E não falo meramente de “qualidade”, mas efetivamente do método, do conteúdo.
O que se faz hoje é extremamente prejudicial para as mentes infantis em desenvolvimento, nossas escolas não ensinam as pessoas a pensar, a refletir, a conhecer o mundo… basicamente se ensina a decorar números e palavras sem sentindo a fim de que se marque o x na letra correta. E com essa onda keynesiana de concursos públicos, até as universidades já entraram nesse ritmo.
Um pensador da área, que infelizmente sou incapaz de recordar o nome, pois apenas vi brevemente uma entrevista sua uma vez, disse algo que carreguei comigo: não basta mudar a educação, mesmo porque isso não é possível, o que tem que se mudar são os educadores. Ele disse que a transformação deve ocorrer na formação dos educadores, porque se estes não são capazes de pensar e refletir sobre suas existências (e esta parte já é por minha conta), eles definitivamente não serão capazes de ensinar.
Bem… a obra como um todo é muito mais complexa do que os singelos comentário que faço aqui. Ibsen trata das falhas do sistema democrático em uma época que este era enaltecido como o veloucino de ouro dos nossos tempos, então eu poderia dedicar o meu blog apenas às discussões levantadas, entretanto, preferi me ater aos pontos que os clássicos da política não costumam comentar. Espero que se divirtam como eu ao ler o livro (ou ver a peça se tiverem oportunidade).
Amei realmente esta obra brilhante que serviu para intensificar meu desejo de que todos os humanos ignorantes e limitados, que estão perdidos por aí, sem rumo, transformem-se em árvores, para que o mundo fique um pouco melhor!
21 Junho, 2009 às 11:16 pm |
Adorei o seu texto, sou estudante de direito e me ajudou bastante num trabalho de ciência política!!