“Você disse, pelo telefone, o lema, adote uma árvore e mate uma criança. Isso significa que você odeia a humanidade?”
“Meu slogan podia ser, também, aodte um animal selvagem e mate um homem. Isso não porque odeie, mas ao contrário, por amar meus semelhantes. Apenas tenho medo de que os seres humanos se transformem primeiro em devoradores de insetos e depois em insetos devoradores. Em suma, tem gente demais, ou vai ter gente demais daqui a pouco no mundo, criando uma excessiva dependência à tecnologia e uma necessidade de regimentalização próxima da organização do formigueiro. Vai chegar o dia em que a melhor herança que os pais podem deixar para os filhos será o próprio corpo, para os filhos comerem. Aliás é chegado o momento de fazermos, nós os artistas e escritores, um grande movimento cultural e religioso universal, no sentido de se criar o hábito de nos alimentarmos também com a carne dos nossos mortos, Jesus, Alá, Maomé, Moisés, envolvidos na campanha. Está havendo um terrível desperdício de proteínas. Swift e outros já disseram coisa parecida, mas estavam fazendo sátira. O que eu proponho é uma nova religião, superantropocêntrica, o Canibalismo Místico.”
(FOSECA, R., Feliz Ano Novo. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras: 2003. pg. 172)
Expontaneamente eu jamais escolheria ler a obra de um escritor nacional, pois em geral, não me agrada muito os estilos literários brasileiros. Sobre Rubem Fonseca já tinha ouvido falar e assistido alguns episódios da série de TV do canal HBO, Mandrake, baseada em contos do autor, por isso posso dizer que meu preconceito era um pouco menor. Entretanto, o que me motivou a ler a obra foi o meu amigo Abel (Rafael Vasconcellos), artista como é, tem excelente gosto, e ainda me conhece muito bem, sabendo o tipo de coisa que me agrada. Ele me sugeriu (e emprestou) a obra.
Logo no primeiro conto, que dá nome ao livro, veio a supresa. O escritor é excelente, diferente de muitas coisas que já li, particularmente odeio a meneira rebruscada de escrever o realismo de alguns compatriotas; e a forma direta de narrativa de Fonseca me conquistou de plano.
O modo de abordar a violência como algo comum reflete a meneira de pensar do autor que combina com a minha: um modo hobesiano de ver o ser humano. Não exatamente seguindo a clássica expressão “o homem é mal por natureza”, mas a idéia geral de que embora racionais, ainda animais. Não desfazendo a humanidade daquele que encontra-se na periferia da cultura, que tem prazer na violência pura, ou em outras formas de desvios sociais. O que poder ser observado na exposição de difersos tipos de violência, da sexual à psicológica.
Recomento o livro àqueles que não gostam de “estorinhas de amor”, e aos que possuem estômago forte. Adiantando que de todos os contos é difícil escolher o melhor, podendo citar no topo: “Feliz Ano Novo”,
“O Outro”, “74 degraus” e “Intestino Grosso”. Sendo “Abril, no Rio, em 1970″ o menos empolgante.
O trecho acima refere-se ao conto “Intestino Grosso”, que embora siga a linha clichê de uma entrevista, coloca de maneira bem organizada as idéias do escritor, escolhido para abrir o texto por chocar com sutileza, tratando de uma questão tão difícil para a humanidade, ao lado do incesto e da pedofilia, o canibalismo. E para encerrar, transcrevo aquela que considerei a melhr cena de toda a obra, do conto “Feliz Ano Novo”.
Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. Avelha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmao assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrad grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.
(FOSECA, R., Feliz Ano Novo. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras: 2003. pg. 18)