Marte Segunda-feira, Jun 23 2008
Lazer conto, deus, literatura, marte, morte 4:13 pm
Retornando às atividades no blog, que não serão abandonadas, embora as atualizações possam demorar, apresento-lhes MARTE; conto que escrevi recentemente sem muita pretensão, pois consiste apenas em um lapso de criatividade, o que (tenho que admitir) não acontece com muita frequência. É o primeiro trabalho deste gênero que desenvolvo, espero que apreciem.
A Dr.ª Julieta Romano, filósofa e teóloga, passou a maior parte de sua vida buscando entender a questão fundamental: o porquê da existência dos humanos nesse universo.
E agora, aos 87 anos, deitada confortavelmente em lençóis e travesseiros extremamente limpos e macios, sentia-se satisfeita pela proximidade de responder todos os seus questionamentos.
Com os olhos cheios de lágrimas, um belo rapaz segura a mão da anciã, despedindo-se silenciosamente.
Julieta sem dor começa a ver um túnel de luz branca formar-se a sua volta e sobre seu corpo. Impressionada com sua própria lucidez, ela reflete: – então quer dizer que os túneis de luz, que tantas pessoas próximas da morte relataram, existe realmente.
Lentamente ela sente-se flutuando por este túnel e, ao mesmo tempo, sente-se tão tranqüila. Aos poucos ela deixa de ver qualquer coisa além do túnel, pois a luz ofusca a sua visão. Ela percebe, no caminho, um perfume muito agradável inundando todo o ar a sua volta; o estranho é que ela não pôde distinguir o cheiro.
Ao longo do caminho, Julieta se habituou com a luminosidade e percebeu que o túnel tornou-se mais transparente, quando pôde ver que viajava através do espaço a uma velocidade surpreendente.
Depois de passar-se o que Julieta percebeu como algumas horas, sentiu-se “aterrissando” delicadamente em um chão plano e morno. O túnel desapareceu, junto com sua luz e ela viu onde estava: um enorme deserto de terra avermelhada, e era só o que se podia ver no horizonte, para qualquer lado que olhasse. O céu rosado e sem nuvens, sem sinal do sol ou da lua; parecendo um crepúsculo.
De repente, Julieta reparou que seu corpo estava bem mais jovem e que vestia apenas uma túnica clara, sem poder dizer de que cor era.
Sob seus joelhos, em todo o terreno havia nevoeiro espesso e esbranquiçado, algo leve, fluído, mas bastante consistente ao toque.
Julieta reparou que aquela misteriosa substância cobria-lhe também o corpo, o que a fazia brilhar levemente na penumbra fria daquele lugar desolado.
Há muito tempo, Julieta Romano teve certeza que seus anos de estudo e pesquisa sobre as diferentes dogmáticas da cultura humana não seriam suficientes para se entender a morte. Por isso, quando soube que tinha câncer, aguardou pacientemente o momento em que desvendaria suas perguntas e colocaria a prova suas teorias. Somente por isso, Julieta não sentia medo neste lugar tão estranho. Ao contrário, sentia-se eufórica, o que atribuía à sua curiosidade sobre o que estava por vir, afinal tinha certeza que este lugar (fosse o céu ou não) ainda tinha mais para lhe mostrar.
Andou um pouco em busca de algo, mas o horizonte era igual para todos os lados. A bruma parecia acumular-se em grande quantidade em um ponto próximo a ela. Sem conseguir perceber em que momento aquela forma surgiu do monte de névoa, foi surpreendida pela visão de um homem, um gigante para falar a verdade, com cerca de quatro metros de altura.
O gigante vestia apenas uma tanga, corpo atlético, longos cabelos grisalhos e enormes bigode e barba brancos. Seus olhos eram duas esferas de luz. Julieta estava encantada, sabendo que olhava para o ser mais belo do universo e instantaneamente veio a sua mente a figura de um deus Annunaki.
A enorme figura aproximou-se da moça com tranqüilidade.
– Saudações, formosa Julieta!
A voz era uma melodia perfeita que enchia os ouvidos de Julieta, deixando-a tremula de prazer.
Com curiosidade pulsante e ainda acostumando-se com a sensação daquela presença, ela pôde apenas balbuciar:
– Você fala a minha língua?!
– Claro que falo… falo a língua de todos os seres do seu planeta, pois observei o seu surgimento e desenvolvimento.
– Você é… Deus? – perguntou Julieta sem ter certeza se sua voz poderia ser ouvida.
– Sou! Eu recebo pessoalmente todas as porções dos humanos que retornam. É muito instrutivo conversar com vocês. Neste exato momento estou conversando com milhares de vocês. No início eu recebia todos os seres, mas atualmente somente a conversa com os humanos é produtiva.
– Quer dizer então que você é homem… – falou Julieta quase que para si mesma, com certo ar de decepção.
– Na verdade sou homem e mulher. Todos os seres vivos são parte de mim, portanto sou composto de todas as essências. Ao mesmo tempo em que sou homem e mulher, sou cão, jacaré, elefante e árvore. Porém, ao receber os humanos, prefiro aparecer como homem para as mulheres e como mulher para os homens. Eu sei o que você está pensando… o mesmo vale para os homossexuais, pois a razão disso não é sexual como você imaginou. É assim que me mostro, porque é deste modo que vocês se sentem mais seguros e menos temerosos na minha presença. Pode parecer engraçado, mas os homens, mesmo quando homossexuais preferem estar na presença feminina e o mesmo ocorre com as mulheres, que ficam mais confortáveis na presença dos homens.
– Quer dizer então que você aparece na forma humana e vestido também para nos reconfortar?
– Não! Esta aparência física que você vê é a minha materialização natural, assim como quando sou mulher. São as formas que desde sempre me senti mais confortável. Tenho motivos para crer que esta seja a minha forma original, por isso você pode sim afirmar, como pretende, que estavam certos quando diziam que eu os fiz a minha imagem e semelhança. – E riu estrondosamente. – Embora eu também tenha feito os outros seres inspirado em algo existente na minha essência.
– Eu tenho inúmeras perguntas para te fazer… não sei por onde começar! Esperei muito por este momento.
– Por isso eu sabia que a conversa com você, Julieta, seria muito boa!
– Porque diz isso? Não são boas as conversas com todos os humanos?
– Ah sim! São ótimas para mim… muito instrutivas, mas muitos de vocês não ficam satisfeitos em saber que o céu não era como imaginavam, não tem anjos com trombetas e nem terão uma ‘vida de luxo’ porque foram ‘bonzinhos’. Em compensação, outros ficam imensamente satisfeitos por saber que não serão punidos por terem se comportado mal. – Mais uma vez os ouvidos de Julieta sentiram aquela risada.
– E o que acontecerá comigo neste lugar? Aliás, se aqui não é o “paraíso”, que lugar é este?
– Com você acontecerá o mesmo que com todos: sua existência individual vai aos poucos misturar-se ao todo que compõe a minha existência. E este lugar é bem conhecido de vocês, o planeta que chama de Marte, local que escolhi para me fixar e desenvolver meus estudos depois de muito vagar pelo espaço.
– Então também estávamos certos quando olhávamos para o céu em busca de Deus e quando falávamos que do pó viemos e ao pó retornaremos.
- É… eu não chamaria de pó… – e pôde-se ouvir alto o seu riso – mas é possível dizer que sim, vocês estavam certos.
– Então a reencarnação realmente não existe…
– Bem, existe no sentido de que quando a sua essência individual se mistura novamente ao todo, ela dará origem aos seres que ainda surgirão. Cada vez que surge um indivíduo vivo eu envio àquela matéria uma porção do meu “corpo” para formar uma existência individual. E quando o corpo material deixa de funcionar eu busco tal essência, aliás, é mais correto dizer que ela é atraída de volta para mim. Foi a partir da descoberta de que eu era capaz de fazer isso que iniciei o meu trabalho no planeta Terra e venho desenvolvendo-o.
– Você disse que vagou pelo espaço. Quer dizer que você vive aqui?
– Sim. É o local mais apropriado para realizar as minhas atividades em seu planeta.
– Mas então você não criou Marte?
Riu ruidosamente. – Vocês têm mania de achar que eu criei tudo, sempre acho graça disso, bem… eu não criei Marte, nem a Terra; aliás, a escolhi pela abundância de água. Mas eu criei todas as coisas vivas que lá habitam. Desde os seres mais simples (como os vírus e bactérias) que foram os primeiros que criei, até o ser mais complexo e que mais se assemelha a mim (ou está mais próximo de mim), que são vocês, humanos. Para desenvolver a estrutura física que comporta a porção do meu ser que lhe dá consciência, precisei utilizar os recursos químicos presentes no próprio planeta, por isso até hoje não encontrei um meio para que tais estruturas deixassem de ser finitas.
– Mas se você é Deus e não criou o universo… quem criou?
– Eu não sei. Mas acredito que ele tenha surgido por si mesmo, e que a minha raça tenha se originado nas explosões originais.
– O que está acontecendo? Estou me sentindo sonolenta e ao mesmo tempo é como se estivesse ficando sexualmente excitada.
– Isso ocorre porque você está se misturando ao todo. Seu sono é porque aos poucos perderá a consciência individual e as demais sensações são decorrentes do prazer de retornar à Origem. É comum, acontece com todos os seres.
– Você falou de uma raça sua… quer dizer que vocês não é único?
– Não, realmente sei que existem outros deuses, mas nunca conheci nenhum. Eu mesmo surgi de um deus. Nós vamos acumulando energia que atraímos com o tempo, ficando maiores… eu por exemplo ocupo todo este planeta… assim, chega um momento em que uma porção da nossa existência começa a desenvolver uma vontade própria que cresce aqui dentro, até chegar ao ponto de fazer força suficiente para se desprender do todo. Este processo é doloroso para o deus que origina, mas não para o que nasce, entretanto, o novo deus faz tanta força que é lançado ao espaço em alta velocidade e totalmente inconsciente. O trauma do nascimento impede que a nova essência se recorde do tempo em que compunha o deus mãe. Na medida em que o novo deus acostuma-se a vagar pelo espaço, ele desperta sua consciência, com todos os conhecimentos instintivos do deus mãe. Assim, tem todos os conhecimentos de sua origem, mas sem lembranças de lá. Eu surgi dessa maneira e em toda a minha existência, dois novos deuses já despertaram de mim, partindo para o espaço. Sempre desejei encontrar outro deus, mas nunca tive a oportunidade.
– Estou impressionada por tudo isso, mas sinto que estou me desfazendo e preciso perguntar se você atendia nossos pedidos na Terra, se nossas atitudes te agradavam ou desagradavam…
– Eu jamais atendi qualquer pedido ou influenciei na vida de vocês de qualquer maneira. Não seria o certo a se fazer, para estudá-los obtendo resultados seguros eu não poderia meter-me no andamento das coisas. Só o que sempre fiz foi observar cada pequeno fato, neste exato momento a maior parte da minha consciência está ocupada observando a Terra. Desde que comecei meus trabalhos na Terra o que tenho feito é criar novos seres, sempre com o objetivo de explorar um canto da minha existência. O que influenciei foi no sentido de destruir algumas espécies que não tinham mais a oferecer aos meus estudos ou porque impediam o desenvolvimento de outras criações que me interessavam mais. Vocês, seres humanos, são o meu principal projeto atualmente, as mais perfeitas criaturas que já fiz.
Já quase sem conseguir falar, pois já praticamente não tinha mais consciência, e pela sensação de prazer comparada a um orgasmo que sentia, perguntou, por fim: – E porque você criou todas essas criaturas? Porque nos criou?
- Para tentar entender o porquê da minha existência nesse universo.

